Movimento Cívico Entrada Norte

Basilio Vieira

Basílio Vieira, dinamizador do Movimento Cívico Entrada Norte

O que se segue é o resultado de uma entrevista a Basílio Vieira, a pessoa que deu origem e dinamizou o Movimento Cívico Entrada Norte, um movimento cidadão com o objetivo de conseguir um acesso seguro à Estação Ferroviária de Santa Apolónia, em Lisboa. Nesta entrevista, Basílio fala do Movimento mas também de dois outros projetos seus que tiram partido das ferramentas sociais para impulsionar e amplificar a participação cidadã na vida urbana.

Como nasceu o Movimento Cívico Entrada Norte?

Curiosamente, nasceu no dia 10 de Junho – Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, no ano em que fiz 40 anos. Acabara de me mudar para Santa Apolónia em Lisboa e comecei a usar diariamente uma rua que dá acesso à estação que tinha um passeio muito estreito. Mais do que estreito, era um passeio perigoso, um passeio que não permitia ir à estação com um carrinho de bebé ou com uma cadeira de rodas. Aquela situação simplesmente não era tolerável e decidi fazer algo para mudar isso.

Depois de contactar a Câmara de Lisboa apercebi-me que esta questão era do conhecimento de todos mas tinha ficado por resolver durante décadas e vi que estava perante um problema que não seria possível solucionar com uma reclamação individual.

O Movimento Entrada Norte nasce então como uma entidade coletiva organizada com a finalidade de reclamar um acesso em segurança à Estação de Lisboa – Santa Apolónia.

Em que medida a criação e envolvimento contínuo no projeto mudaram a sua perceção de cidadania?

Mais do que sentir a obrigação de me portar de forma civilizada em sociedade, foi quando percebi que poderia mudar a sociedade e o meio físico onde vivo. Terá sido talvez um despertar tardio, mas até aquele momento vivia num mundo moldado por outras pessoas e resignava-me às situações que encontrava, assumindo que sempre foram assim e sempre assim deveriam ser, estivesse algo certo ou errado. Todo o processo do Movimento Entrada Norte levou-me numa viagem em que deixei de ser um utilizador passivo da cidade como a encontrei para me tornar num elemento que tenta intervir e melhorá-la por achar que é essa a sua responsabilidade enquanto cidadão.

Qual foi o papel que as ferramentas sociais, a vertente online, teve no desenvolvimento do movimento?

Tenho a profunda convicção que não teria conseguido obter os resultados pelas vias tradicionais. Embora tenha dedicado muito atenção a acções no terreno e reuniões com todas as partes envolvidas no processo, claramente o online foi o canal principal de todo o movimento: o efeito amplificador de uma publicação que desperta o interesse para um problema e a capacidade de difundir uma mensagem sem perda de qualidade foi fulcral para conseguir vencer a inércia das entidades envolvidas.

Tinha dois objectivos: o primeiro era mudar o acesso à Estação de forma a garantir níveis mínimos de segurança; e o segundo era ajudar a despertar o sentido de cidadania nos habitantes da freguesia onde vivo. Porque quem vive na cidade é quem deve e pode de forma ativa participar na construção da sociedade. Sinto que, em parte, teria falhado se tivesse apenas conseguido mudar uma rua mas os habitantes ficassem a pensar que algo mudou sem necessidade de intervirem, de os próprios se envolverem.

Além do Twitter e do Facebook como redes sociais de eleição, houve um conjunto de ferramentas de integração que permitiram fazer muito do trabalho de secretariado: o “IFTTT – If This Then That” para automatizar a recolha de dados nas redes sociais e o “Buffer”, um serviço que permite programar tweets para as horas de maior impacto.

Houve alguma reação, algum feedback aí obtido que o tenha marcado mais?

Num momento de grandes adversidades, de reuniões que eram constantemente desmarcadas, de pequenos insucessos que minam a confiança em todo o processo político, o Pedro Aniceto, um amigo e apoiante da causa, deu-se ao trabalho de escrever no blog dele um longo e elegante texto de apoio a todo este esforço e foram essas palavras que deram alento para continuar e depois conseguir chegar até ao primeiro artigo de um jornal, a primeira entrevista na rádio, o primeiro momento na televisão.

Cartaz do Movimento Cívico Entrada Norte

Cartaz do Movimento Cívico Entrada Norte: exemplo de convivência entre o “físico” e o digital

Quais foram as maiores dificuldades que encontrou?

A gestão do próprio tempo. O cidadão normal dedica obrigatoriamente o seu dia-a-dia a vários assuntos: a profissão, a casa, a família, os seus hobbies. No meio de tantos interesses e obrigações é difícil manter-se focado num movimento cívico, mais ainda na nossa sociedade que tem ainda poucas referências nesse campo.

A inércia das entidades envolvidas e o facto de cada uma delas ter uma agenda própria acaba por ser uma força contra-vapor que surge normalmente aliada à apatia e resistência ao envolvimento dos vizinhos.

As ferramentas sociais ajudaram na superação dos problemas?

A grande difusão de mensagem que se consegue obter tem como consequência uma base de apoio muito alargada: somos elogiados pelos nosso esforço nos momentos mais improváveis e isso acaba por ser mesmo muito importante para manter o ânimo quando parece que a batalha está perdida.

Além disso, por ser um meio digital por natureza, dispomos de acesso a métricas que permitem saber em tempo real qual o impacto de cada acção, de cada comunicação, de cada entrevista conseguida. São números fáceis de analisar e permitem saber o que pensa quem nos apoia e que dão consistência a um movimento para vencer a inércia natural das câmaras municipais, das juntas de freguesia, das entidades gestoras de espaços públicos.

Para que tudo isto ganhe forma é necessário roubar muito tempo à vida pessoal e profissional ou apenas disciplina?

Uma abordagem sistemática e o domínio das ferramentas disponíveis poupam muito tempo no momento de iniciar uma campanha ou tentar convocar uma manifestação. Os amigos e familiares serão sempre parceiros naturais que ajudarão no que lhes for possível como desenhar um logotipo, reler textos à procura de erros, distribuir panfletos ou tirar fotografias para memória futura.

Organizar um movimento cívico requer muito menos tempo do que aparenta. Foi aliás essa a grande descoberta que fiz: numa sociedade algo apática, é possível obter bons resultados com um pequeno esforço organizado de forma consistente.

Que conselhos daria a qualquer pessoa que se sinta também incomodada com algum problema, resolúvel, e com vontade de ter um papel ativo na sociedade?

Comece. O primeiro passo de qualquer jornada parece sempre o mais difícil, mas com o apoio dos amigos, da família e da rede social rapidamente se descobre que metade do caminho já está feito.

Numa vertente mais prática, existem algumas regras que podem ajudar bastante:

  • Ensaie tudo, ensaie sempre – Treine o seu elevator pitch, a frase curta e cativante que explica o problema, a sua importância e a solução que propõe.
  • Credite sempre – Muitas das ajudas serão gratuitas, feitas por quem acredita na causa. Agradecer essa ajuda publicamente é obrigatório.
  • Anote tudo – Num mundo desorganizado, ser metódico é uma vantagem competitiva. Após uma reunião anote com quem falou e o que foi referido. Faça-o enquanto a memória está fresca: as interrupções surgem-nos nos momentos mais inesperados e é fácil esquecer pormenores que poderão vir a ser importantes.

E a alguém que queira incluir as ferramentas sociais nessa atividade?

Aprenda a analisar as métricas. O Facebook, por exemplo, dispõe de relatórios onde consegue comparar o impacto de uma publicação feita às 9 da manhã e uma publicação semelhante feita às 4 da tarde. Da mesma forma, conseguem perceber se estão a fazer publicações que cativem mais a atenção do grupo demográfico que vos seja mais relevante.

Comece cedo. Cultivar uma rede social extensa e variada requer algum empenho e tem um ritmo natural de crescimento. Não espere por um momento crucial para criar a sua rede pessoal de apoio e de contactos que serão relevantes para a resolução de um problema. Inicie uma presença nas redes sociais como uma extensão da sua presença na sociedade que pode até ter um comportamento divertido mas lembre-se sempre de ter um comportamento responsável. A imagem que transparecer irá ter uma influência direta no tipo de laços que irá estabelecer.

Tenha presente que vivemos o melhor dos tempos. Dispomos agora de meios que nos dão capacidades de comunicação impensáveis há 30 ou 40 anos atrás. As ferramentas sociais vieram democratizar a voz de cada cidadão e hoje cada um de nós pode e deve fazer a sua parte para construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Exemplo de foto com #MeioMetroLX

Fotos de placas de avaria no Metro de Lisboa publicadas com a hashtag #MeioMetroLX no Twitter surgem no  Tumblr

De que forma o Movimento Entrada Norte o impulsiona agora a usar as redes sociais para continuar a adotar uma postura interventiva em relação à cidade onde vive e trabalha?

Depois de se obter uma solução para a Rua dos Caminhos de Ferro, implementada primeiro em fase experimental e a aguardar agora as obras de intervenção definitiva, resta-me o “passar do testemunho” partilhando com outros esta experiência, tanto na vertente de cidadania como na vertente mais prática das boas-práticas na utilização das redes sociais e ferramentas disponíveis.

Além do Movimento Entrada Norte, estou agora na fase de arranque do “#MeioMetroLX“, uma forma de chamar a atenção para as avarias existentes na rede do Metropolitano de Lisboa, desde as pequenas avarias em máquinas de venda de bilhetes até algumas mais graves como falhas em equipamento de acesso para cidadãos com mobilidade reduzida.

Num futuro próximo pretendo iniciar uma plataforma para deteção e remoção de tags em espaços públicos, numa tentativa de combater o aspeto de insegurança e de descuido que transmite à zona urbana onde ocorrem fenómenos de tagging. Esta plataforma, com o nome de Mata-Tag, prevê uma componente de gamification apoiada numa rede social de indivíduos que se dividem entre as tarefas de deteção (os spotters), remoção (os cleaners) e controle posterior (os controllers). Cada indivíduo é convidado a desempenhar qualquer uma destas ações sendo o sistema responsável por atribuir pontos e badges a cada jogador e organizar eventos. O grande objetivo é conseguir criar uma estrutura de cidadania que sirva de força de oposição ao tagging para voltar a conquistar a cidade, uma rua e um bairro de cada vez.

Publicado por:

   Daniela Azevedo

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