Podemos ou não podemos?

No passado dia 20 de maio, Carlos Carreiras, Presidente da Câmara Municipal de Cascais, subiu ao palco do Centro de Congressos do Estoril durante a cerimónia oficial de abertura das Conferências do Estoril 2015. Todo o seu discurso foi voltado para a importância do contributo das partes na resolução dos problemas que afetam o todo, não fosse o mote deste evento “Desafios Globais, Respostas Locais”.

“O maior inimigo da democracia é a ignorância.”

Capa do livro "O Fim do Poder" de Moisés NaímA ideia de “glocalização”, referiu Carreiras, assenta num princípio de ideias e respostas que se movem de baixo para cima, do particular para o geral (uma abordagem que me é particularmente querida, como partilhei em 2011 no TEDxCoimbra). Um exemplo disso podem ser, por exemplo, as cidades que, ao buscarem respostas para os desafios no seu contexto específico, podem encontrar pistas para ajudar à resolução dos desafios numa escala maior. Também a participação dos cidadãos foi exaltada, tendo Carreiras dito mesmo que o Homem “glocal” busca a felicidade na simplicidade e tem todo o tempo do mundo para o fazer.

Este posicionamento dos cidadãos como agentes de mudança, de facto, foi uma boa continuação para a palestra de Don Tapscott que falou dos novos modelos de negócio num contexto de co-criação, e um bom preâmbulo para a conversa com Moisés Naím. É nesta intervenção de Moisés Naím que assenta o resto deste texto.

Nascido na Venezuela em 1952, Moisés Naím tem um percurso interessante que passa pelo jornalismo e até mesmo, ainda que por pouco tempo, pelo cargo de Ministro venezuelano para o Desenvolvimento. Tornou-se mundialmente famoso ao escrever o livro “The End of Power”, traduzido para português como “O Fim do Poder”.

Ainda que uma pergunta de um dos participantes o tenha levado a afirmar que teria sido mais correto falar em “O Fim do Poder Centralizado”, a ideia central do trabalho de Moisés Naím prende-se no fim do Poder tal como o conhecemos.

Como Moisés repetiu variadas vezes:

“Power is now easier to acquire, harder to use and easier to loose”

O poder está a mudar e a decair, isto é, está a mudar de A para B e, para além disso, B será capaz de fazer menos com o poder do que antes conseguia A.

Para alguém reter o poder é preciso que:

  1. os concorrentes não consigam retirar esse poder; e,
  2. os subordinados não consigam ignorá-lo ou desobedecê-lo.

Os Governos, por exemplo, precisam de tomar consciência e deixar de dizer que estão a “dar poder às pessoas”: a verdade é que são as pessoas que estão a ganhar esse poder.

Um dos participantes na sala perguntou até que ponto é mau que os super-poderes estejam a ter menos poder. Moisés respondeu que assistimos a uma mudança de “mega-players” para “micro-powers”, tendo aludido várias vezes a alguns dos mesmos exemplos que Don Tapscott também citou e que são frequentemente mencionados: como a Google, por exemplo, ou o Airbnb. Porém, diz Moisés, se por um lado é saudável que haja uma maior distribuição de poder, a grande fragmentação de poder também é negativa pois causa paralização.

Esta revolução a que assistimos, bem diferente da revolução industrial do século XVIII por ser global e universal, resulta de três outras revoluções a que Moisés chama de revoluções do Mais (temos mais de tudo), da Mobilidade e de Mentalidade.

Moisés vê a Internet como importante nesta revolução mas apenas como um instrumento. Os aspetos demográficos são a chave para a atual revolução e esses nada têm a ver com a Internet ou com a tecnologia.

Os últimos 20 anos têm sido palco de grandes inovações: desde a saúde à energia, do vestuário às telecomunicações, etc.. A única área em que nada mudou foi a Política.

Partidos como o Podemos em Espanha ou o Syriza têm sido importantes pela forma como vieram abanar o barco e mostrar alternativas. A verdade é que a realidade do que se passou na Islândia (com a co-criação da Constituição que depois foi rejeitada) ou a falta de tração significativa do Partido de la Red na Argentina, levam Moisés a crer que apesar de tudo estes esforços irão morrer na praia.

Mais do que “Reinventar a Democracia” como Manuel Arriaga sugere, o autor venezuelano sugere que o caminho para uma Política e uma forma de Governo diferentes passa pela modernização dos partidos políticos. Mas os mais jovens não se querem juntar aos partidos pela corrupção que lhes é associada. Os mais jovens preferem ceder o seu tempo e as suas competências a movimentos, a causas. Infelizmente, não podemos ter uma democracia composta por “movimentos” e, por isso,

“é vital conseguir atrair os idealistas de volta para os partidos políticos”.

As “Conferências do Estoril” são um evento bi-anual, organizado pela Câmara Municipal de Cascais e que pretende, com pessoas de todo o mundo e com o olho no mundo todo, pensar em respostas locais para desafios globais. Este é sem dúvida um grande desafio mas para o qual, infelizmente, ainda não foi possível encontrar resposta nesta edição. Quem sabe daqui a 2 anos seja possível beber da experiência adicional do Podemos, do Syriza, outros partidos e outras formas de querer participar na Política, derivando pistas que nos permitam pensar num futuro com uma participação mais ativa e mais “real” dos cidadãos.

Publicado por:

   Ana Neves
Sócia e Diretora Geral da Knowman, empresa de consultoria nas áreas de gestão de conhecimento, comunidades de prática, ferramentas sociais e participação cívica digital. É uma das organizadoras do evento Cidadania 2.0 e a pessoa responsável pela plataforma Cidadania 2.0.

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