Racismo Virtual Consequências Reais

racismo virtual

Jurema Werneck, médica e fundadora da ONG Criola, organização conduzida por mulheres negras, que defende e promove os direitos das mulheres negras, falou com o Cidadania 2.0 sobre a campanha “Racismo Virtual Consequências Reais“, lançada na segunda metade do ano passado no Brasil. A campanha detetou que muitas vezes, os comentários nas redes sociais são feitos a partir de perfis falsos, disfarçando a sua verdadeira autoria. Noutras, é claramente demonstrado o preconceito e o racismo. A campanha “Racismo Virtual Consequências Reais”, desenvolvida pela ONG Criola, surgiu a partir das agressões sofridas, nas redes sociais, pela jornalista Maria Júlia Coutinho, da TV Globo.

 

jurema-werneckO projeto Racismo Virtual tem como slogan ‘Racismo virtual, consequências reais’, um slogan que a campanha reproduz lindamente ao mostrar em cartazes bem reais ataques racistas encontrados nas redes sociais. Porque pensaram atuar desta forma? Que tipo de impacto esperam causar nos atacantes e na sociedade em geral?
O objetivo da campanha é, realmente, causar impacto. Queremos que a população tenha consciência dos efeitos de um comentário infeliz na Internet. Ao materializar esses ataques virtuais em grandes painéis nas ruas, expostos para todos, a nossa intenção é fazer com que as pessoas discutam e reflitam sobre esse grave cenário que os negros passam todos os dias, muitas vezes de forma velada. Os outdoors colocam uma luz sobre o tema “racismo virtual”, que acaba por envolver todas as formas de racismo.
Quanto aos agressores, queremos que eles, de facto, se sintam constrangidos ao serem expostos. Não é possível ignorar esses ataques e achar que não haverá consequências. Racismo é crime segundo a Constituição brasileira e queremos que a sociedade se posicione contra esse retrocesso.

O conteúdo da vossa campanha vem das redes sociais e foi usado para criar os cartazes. Que estratégia usaram para, de certa forma, fechar o círculo e levar o conteúdo gerado pela vossa campanha novamente para as redes sociais?
Para levarmos o debate sobre a campanha para as redes sociais, divulgamos a campanha para os veículos de comunicação, obtendo, assim, visibilidade em diversos tipos de media: TV, rádio, revistas, Internet e agências de notícias. Muitas pessoas que seguem o Facebook da Criola também nos ajudaram a multiplicar a campanha nas redes. Nesse grupo estão incluídos importantes líderes de opinião, como a Juliana Alves, atriz da TV Globo e muito ativa na defesa das mulheres negras.

Que redes sociais usaram para difundir a mensagem? A campanha já terminou?
Além das redes sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, também temos o site da campanha www.racismovirtual.com.br, criado pela W3haus.
A campanha ainda não terminou.

Que recursos são necessários para uma campanha destas, nomeadamente para fazer a gestão das redes sociais utilizadas?
Os recursos utilizados foram do próprio Facebook. A agência W3haus fez um trabalho de mapeamento dos comentários no Facebook, para os quais utilizou as ferramentas de geolocalização da plataforma e localizou as cidades onde os autores das ofensas moram. A agência fez questão de utilizar os comentários de perfis reais – eliminou os de perfis falsos – e, após negociação com vários media, foi possível transformar esses ataques virtuais em algo material, na forma de outdoors e outros recursos exteriores instalados nas principais ruas e avenidas das cidades mapeadas.

O racismo virtual é diferente daquele que acontece cara a cara? Como?
Não. Virtual ou real, a agressão é a mesma. A Internet é só mais uma ferramenta que medeia as nossas relações, que incrementa a nossa experiência com o que entendemos por real. A maneira como agimos nas interações virtuais tem muito a ver com quem somos fora da Internet. A sensação de anonimato que a Internet proporciona amplia as vozes e revela coisas horríveis que antes eram faladas em sussurro. A Internet faz com que as pessoas se sintam livres para proferir comentários racistas. Um exemplo disso são as caixas de comentários de qualquer portal de notícias, nas quais observamos como é fácil as pessoas propagarem mensagens de ódio gratuitamente. Ódio esse que vemos e/ou vivemos diariamente fora da Internet, com inúmeros casos em que a cor de pele foi objeto de riso ou alvo da violência de um sistema de supremacia branca.

Acham que é mais fácil ofender quando se está escondido por detrás de um perfil que até pode ser falso?
Sim. É por isso que precisamos incentivar ações como a da nossa campanha e exigir outro comportamento da sociedade e das autoridades competentes para deixar bem claro que há, sim, consequências sérias para esse tipo de atitude covarde. Os agressores virtuais não podem agir dessa forma e sair impunes.

Sentem que as redes sociais podem fazer parte da solução para este problema? De que forma?
Acreditamos que, ao levar a campanha para as redes sociais, estamos a contribuir para estarmos mais perto da solução para este problema. O racismo no Brasil é algo secular, cultural, sabemos que não vai ser resolvido do dia para noite. Mas sabemos também que, noutras épocas, o cenário era muito, mas muito pior. Levar a campanha para o ambiente digital é muito importante para nós da Criola, uma vez que a força da viralização de conteúdos via online já deixou de ser uma tendência para ser uma realidade na vida das pessoas. E, como se trata de um conteúdo de relevância, o efeito de multiplicador é mais do que válido, é fundamental para gerar impacto e alertar a população para as consequências de um comentário infeliz na Internet. Esperamos que, com a força da partilha da campanha nas redes sociais, o debate se intensifique cada vez mais, fazendo com que as futuras gerações da população negra não sofram com atitudes como esta.

 

maju racismo virtualComo reagiram à campanha Racismo Virtual as vítimas destes ataques? Como reagiu, por exemplo, a Maria Júlia Coutinho que inspirou este projeto?
Na verdade, ficamos a saber pela imprensa a reação da jornalista aos ataques que ela sofreu. A Maria Júlia Coutinho ficou abalada e isso afetou até a sua família. Mas, em seguida, deu a volta por cima.
No Brasil – e acredito que em todo o mundo -, os negros lidam com o preconceito desde que se conhecem por gente. É algo que magoa mas, depois, precisamos seguir em frente e lutar por aquilo que queremos. No caso da Maju, ela é uma profissional super bem sucedida, uma jornalista muito competente, um dos destaques do telejornal mais importante do Brasil (Jornal Nacional, da Rede Globo), muito querida por todos – amigos, família, telespectadores. Ela é uma mulher realizada e isso é uma grande vitória. Não são esses comentários feitos por covardes que se escondem por detrás do ecrã do computador que vão derrubá-la. Nem a ela, nem a ninguém que passa por essa situação. Ao tomar conhecimento da nossa campanha, a Maria Júlia enviou-nos uma mensagem de apoio à iniciativa. E muitas outras pessoas também nos enviaram mensagens a relatar as suas experiências de racismo na Internet, a solicitar orientações sobre como agir nestes casos e também a pedir informações sobre como desenvolver outras campanhas semelhantes à nossa.

Que lições aprenderam com esta campanha?
Aprendemos que, assim como existem pequenos grupos que se esforçam para desmoralizar as pessoas – seja por causa da sua raça, género, estatuto, religião, origem etc. – existem muitas, mas muitas outras pessoas que se indignam com essas atitudes e nos apoiam, que ficam ao nosso lado. No caso da campanha “Racismo virtual – As consequências são reais”, o alcance que ela obteve e o retorno que temos recebido têm sido extremamente gratificantes para nós. Pessoas do Brasil e de outros países entram em contacto connosco, a elogiar a campanha, a pedir informações e materiais para reproduzi-la onde vivem. Para se ter uma ideia, o portal dos CLIO Awards, dos mais famosos prémios de publicidade internacional, elegeu a nossa campanha como uma das quatro campanhas brasileiras mais faladas em 2015. É muito bom saber que, através de um trabalho aparentemente simples, mas que envolveu um grande planeamento criativo e estratégico, a Criola conseguiu ser uma referência internacional na luta contra o racismo. E pretendemos continuar a contribuir com ações que exijam da sociedade uma posição contra o racismo e lutem para garantir um futuro melhor, que valorize e dê poder à população negra brasileira.

Há outras iniciativas previstas para o futuro?
Sim, a campanha vai continuar em 2016, mas esses detalhes serão divulgados posteriormente, no decorrer do ano.

Publicado por:

   Daniela Azevedo

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