Porque é que a Internet ainda não mudou a política

Os últimos 20 anos têm sido palco de grandes inovações mas a única área onde nada mudou foi a Política. Isto diz Moisés Naím. E Micah L. Sifry (@Mlsif) concorda como se percebe no livro que publicou em 2014 sob o título “The Big Disconnect: Why the Internet Hasn’t Transformed Politics (Yet)”.

“the goal of democracy is the condition where all people can participate fully and equally in the decisions that affect their lives”

“the purpose of democracy isn’t only for each of us to have our say, but to blend individual opinions into common agreements. Instead of letting our digital tools drive us in ways that exacerbate our differences, we must insist on tools that bring us together as equals to solve problems.”

Segundo Sifry, co-fundador da Civic Hall e da Personal Democracy Media, há três razões pelas quais a Internet ainda não conseguiu alterar o sistema político tanto quanto poderíamos pensar:

  1. está a transformar-se num recurso caro pela forma como tem vindo a ser usada (big data);
  2. tem-se revelado mais capaz de travar momentos do que de construir movimentos (de mudança);
  3. são poucas as ferramentas disponíveis para efetivamente apoiar movimentos de criação e realização conjunta.

A questão do “poder” que Naím tanto refere é também abordada por Sifry quando diz:

“To be connected to others, whether navigating unfamiliar territory or sharing a common interest, is inherently empowering. (…) Connections sometimes lead to collaboration, and when people do things together, that creates trust and social cohesion. And those things help create people power.”

The Big Disconnect - capa do livroSe por um lado se sabe que “savvy online politicking means understanding how to convert moments into movements”, também vemos que os “[p]oliticians or organizers rarely try to convert attention into more complex forms of engagement and commitment”. E quando tentam vêem-se a braços com inúmeras distrações que, na Internet e fora dela, competem por atenção. “The Internet has made it easier to find the others, but it is also making it harder to bind with each other with common focus. (…) We may not like to admit it, but our digital tools are shaping us far more than we are using them to reshape the world.

A tecnologia poderia, teoricamente, contribuir para envolver mais cidadãos no processo político, introduzindo maior diversidade e alcançando maior representatividade. Porém, isso não se verifica. Têm-se perdido oportunidades: algumas por falta de experiência, outras por falta de interesse genuíno na mudança.

Em 2004 Howard Dean abraçou as redes e ferramentas sociais durante a sua campanha eleitoral à presidência dos Estados Unidos. Pela primeira vez a tecnologia foi usada numa campanha presidencial para dar aos cidadãos voz e instrumentos para se auto-organizarem, gerando movimentos populares a partir de baixo.

Na sua primeira campanha, em 2008, Barack Obama usou a Internet e as ferramentas sociais para mobilizar eleitores mas também para dar maior projeção aos seus objetivos e valores.

Porém, quando em 2012 Obama se re-candidatou à presidência norte-americana, a Internet assumiu um papel bem distinto. A sua segunda campanha voltou a apostar nas redes sociais mas desta vez como fonte de dados (big data) que alimentou uma comunicação direcionada e individualizada.

O big data surgiu como uma fonte de poder para as campanhas mais ricas e não para os cidadãos. Para muitos, e tendo em conta o grande movimento que Obama conseguiu criar na sua primeira campanha, esta foi uma oportunidade perdida de liderar a criação de um novo modelo de participação cívica. Nas palavras de Marshall Ganz, que formou muitos dos líderes locais durante a campanha de Obama, “the president demobilized the widest, deepest and most effective grass-roots organization ever built to support a Democratic president”.

Esta aptência para as campanhas políticas assentes nos dados preocupa Sifry que parece partilhar a opinião da socióloga Zeynep Tufekci. Segundo ela, estas campanhas são uma grave ameaça ao processo democrático porque:

Contudo, as redes sociais assumem-se como canal privilegiado de contacto com os eleitores. Especialmente porque o email já não tem o alcance de outrora e, enquanto plataforma, não permite ouvir as pessoas, debater ou chegar a consensos.

Front Porch Forum, Loomio e SeeClickFix são algumas das plataformas apontadas por Sifry como tendo um impacto positivo. Segundo ele, o SeeClickFix “isn’t ‘e-government’, where the authorities use the web to provide information and services, but ‘we government’ sustained by peer-to-peer connections around the issues and needs that matter most to people”.

Apesar dos riscos inerentes ao caminho que estamos a trilhar, o autor do livro acredita que a tecnologia e os dados podem ser usados para conceber novos modelos de participação cívica. Para isso é preciso:

  1. criar espaços digitais, públicos e genuínos, onde os cidadãos possam interagir e cocriar;
  2. facilitar o acesso a dados fiáveis para apoiar a decisão informada dos cidadãos;
  3. que os cidadãos alterem o seu próprio comportamento e o seu grau de exigência para com as tecnologias.

Joseph Licklider, o cientista americano que na década de 60 descreveu os princípios básicos do que hoje entendemos como a Internet, argumentou que a ligação de múltiplos computadores em rede iria viabilizar “[decisions] in the ‘public interest’ but also in the interest of giving the public itself the means to enter into the decision-making process that will shape their future”.

Talvez depois de seguidas as três recomendações de Sifry seja possível finalmente dar vida a esta visão de Licklider.

The Big Disconnect: Why the Internet Hasn’t Transformed Politics (Yet)” baseia-se na realidade dos Estados Unidos e tem alguns pontos, nomeadamente os relacionados com o processo de campanha eleitoral, que afastam o livro da realidade Europeia. Apesar disso, muitas das considerações de Micah L. Sifry são pertinentes para a maioria dos países da Europa. Mais ainda, o livro está recheado de exemplos e há imensas recomendações úteis para a criação dos tais espaços digitais públicos de participação cívica que o autor tanto defende. Haja vontade para os criar.

 

Publicado por:

   Ana Neves

Sócia e Diretora Geral da Knowman, empresa de consultoria nas áreas de gestão de conhecimento, comunidades de prática, ferramentas sociais e participação cívica digital. É uma das organizadoras do evento Cidadania 2.0 e a pessoa responsável pela plataforma Cidadania 2.0.

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