23 Exemplos de como as ferramentas web contribuem para uma sociedade melhor

Foto de grupo no final das apresentações do 2º dia do evento

Alguns dos oradores dos dois dias do Cidadania 2.0 na companhia dos 3 organizadores do evento

O “Cidadania 2.0” realizou-se este ano a 26 e 27 de setembro, pela primeira vez no Porto, no Teatro Rivoli, onde voltou a mostrar que o ambiente online e as ferramentas da web 2.0 estão a contribuir, cada vez mais, para o aumento das manifestações de cidadania. Em dois dias foram apresentados 23 projetos levados a cabo por especialistas em áreas tão distintas como a saúde, a educação, a política e até a biologia.

Rui Ramos, do eSolidar, começou por mostrar como as ferramentas online podem trazer um impacto social mais positivo.

“O e-commerce é o pilar no qual assenta toda a atividade do eSolidar. 75% do tempo que as instituições de solidariedade social gastam é à procura de dinheiro para financiar as suas causas, por isso, a nossa proposta é intervirmos junto dessas instituições”, descreveu Rui Ramos.

Além de uma muito bem sucedida venda de narizes para a Operação Nariz Vermelho, o eSolidar também já tem no seu “currículo” as ofertas de Tony Carreira e da fadista Carminho que se juntaram à Associação Nacional de Combate à Pobreza (ANCAP). Um fã britânico acabou por arrecadar o disco de ouro “Fado” por 350 euros e uma fã de França pagou três mil euros pelo disco de Tony Carreira.

No campo da saúde qualquer frase que comece com o verbo “Adoeci” antecipa-se que não venha a ter o melhor desfecho mas Rita Vilaça decidiu contornar a questão e lançar um site que pretende agregar pacientes que sofram de uma mesma patologia para poderem partilhar experiências, dúvidas e até estados de espírito. “Achei que era importante porque muitas vezes as pessoas sentem-se perdidas. Se perceberem que há outras na mesma situação sentem-se acompanhadas e isso torna o caminho mais fácil”, descreveu a autora do projeto que já conta com o apoio de onze associações, mais de mil membros e uma centena de grupos criados, num trabalho feito por um informático, um designer e um gestor, que já estão a trabalhar numa versão mobile do Adoeci.

Uma das apresentações que mais perguntas suscitou na audiência foi a da investigadora Ana Aguiar, que apresentou o SenseMyCity, que surge da comunidade académica, mais concretamente na Universidade do Porto. No trabalho já desenvolvido foram usados vários sensores colocados, quer no corpo humano, quer nos carros, e que têm como objetivo recolher dados e juntá-los «para ter indicadores de qualidade de vida na cidade aproveitando o fato de termos sensores nos nossos smartphones», explicou a investigadora. O destino fora do ambiente académico desta aplicação pode passar por uma estimativa do consumo de combustível, perceber onde as pessoas passam mais tempo, onde há mais pontos wi-fi, fazer-se um estudo ecológico ou até perceber em que zonas os portuenses se sentem mais felizes.

De Espanha vem o FlipOver, o projeto apresentado por Jorge Garcia del Arco que demonstrou como os cidadãos podem contribuir para um mundo melhor ao identificar, mapear e descrever desafios sociais, mas também através da partilha de novas situações de desequilíbrios sociais que mereçam uma atenção particular. O crowdsourcing é conseguido num contato direto com as pessoas. “FlipOver é ultrapassar questões sociais, é dar a volta por cima. Antes de adotar há que adaptar”, conclui um dos autores da plataforma FlipOver onde os cidadãos podem também partilhar informação e experiências de técnicas e abordagens que podem ser usadas como respostas aos problemas identificados.

Quase como uma extensão do FlipOver, Jorge Garcia del Arco também levantou o véu para o que aí vem: o Progrezz.it – uma aplicação apresentada no segundo dia do evento por Gonzalo Aller e que alerta consciências para a prática social através de jogos: “O Progrezz.it gamifica a forma de colaborar, fazendo o enfoque num determinado problema, como um buraco na rua, por exemplo, e permite a inclusão de bonecos na interface de jogo” antecipou o autor, que parece perseguir a felicidade. “Queremos que as pessoas sejam felizes, estamos à procura da felicidade. Para isso temos que estar unidos. O Progrezz.it é uma ferramenta que permite unir as pessoas”, conclui.

“As decisões em educação devem ser pautadas em evidências, em dados”.

Foi com esta questão de fundo tantas vezes esquecida que Ernesto Martins Faria trouxe ao Cidadania 2.0 um projeto que a Fundação Lemann e a Meritt desenvolveram no Brasil e que congrega, num só site, inúmeras combinações de dados que se traduzem nas mais diversas estatísticas, sempre tendo em conta uma avaliação da qualidade da aprendizagem conseguida em cada escola pública do ensino básico. O QEdu permite avaliar os dados de forma simples, compará-los com os estados e regiões vizinhas ou até fazer uma curva evolutiva o que permite concluir que, na realidade brasileira, «quase todas as escolas com melhor desempenho recebem alunos de mais elevado nível socioeconómico». A formação de jornalistas para a área da educação foi um dos pilares que motivou Ernesto Faria a desenvolver o projeto.

O Public Opinion and Sentiment Tracking, Analysis and Research, ou simplesmente, POPSTAR, foi apresentado por Pedro Magalhães, que, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, começou a desenvolver métodos de recolha, medição e agregação de opiniões sobre a classe política portuguesa que diariamente vão sendo deixadas em blogues, na imprensa e no Twitter. A frequência com que se fala dos líderes e dos partidos políticos esbarrou, contudo, numa situação que Pedro Magalhães teve de contornar: as alcunhas e nomes pouco elogiosos que os portugueses criativamente inventaram para se referirem aos Governantes: “Foi preciso partir de uma lista inicial de nomes de políticos e as respetivas variações lexicais (alcunhas)”. Na página do POPSTAR há informação atualizada diariamente sobre o sentimento dos portugueses (baseados em tweets) face aos líderes políticos.

A Polícia de Segurança Pública, que está a assinalar o seu quarto ano de presença no Facebook, também mereceu a atenção do Cidadania 2.0. A presença diária da PSP na rede social já lhe granjeou milhares de seguidores que vão sendo aliciados com informação operacional criativa. O subintendente Paulo Ornelas Flor, diz que a PSP se quer tornar numa das cem marcas mais influentes do país e, para isso, quer “reforçar a imagem do polícia e da Polícia enquanto instituição que tenta zelar pela segurança e não só que multa ou que bate”. Confrontado pela audiência com o fato da página apenas replicar informação e não responder ao público, Ornelas Flor admitiu que é uma das lacunas que a PSP está a tentar ultrapassar.

A biologia também teve lugar no Cidadania 2.0, na sua estreia no Porto. Elizabete Marchante veio de Coimbra para mostrar Invasoras.pt, uma plataforma que pretende fazer o tracking de localização geográfica de plantas que não são boas nem para a saúde pública, nem para o equilíbrio dos ecossistemas. Os técnicos que trabalhem com plantas serão os principais interessados em visitar o site mas também o público em geral. “18% das plantas que estão no nosso território são plantas exóticas e quase 8% são plantas invasoras”, explica a especialista, enquanto lamenta que a sua tarefa de divulgação do projeto não seja muito fácil: “É difícil passar uma mensagem negativa, porque há plantas muito bonitas e que são polémicas”.

Coube a André Lapa e Fábio Fernandes mostrarem como é que a Agência para a Modernização Administrativa – AMA e a Direção-Geral das Autarquias Locais – DGAL, estão a reutilizar a informação do setor público. A principal intenção do Portal de Transparência Municipal é mostrar que a Administração Pública é um “edifício aberto” que permite disponibilizar e comparar dados entre autarquias numa consulta em português e inglês “porque a União Europeia manifestou interesse em adaptar o modelo a outros países”, revelou Fábio Fernandes, enquanto explicou um dos motivos que levou ao investimento neste site:

“As Câmaras Municipais concorrem muito entre si por isso os autarcas reagem fortemente à pressão da população que servem”

A finalizar o primeiro dia de apresentações, Franco Accordino, até recentemente líder da task force “Digital Futures” da Comissão Europeia, mostrou como funciona o Futurium que, na sequência de uma nova liderança na União Europeia pretende focar todo o potencial de desenvolvimento de uma sociedade 2.0 no cidadão. O Futurium pretende levar os cidadãos a identificarem cenários futuros, tirando partido da informalidade das redes sociais. E como fazê-lo? Franco Accordino tem a resposta:

“No Futurium o desejo para o futuro é focado no lado emocional. Facilmente percebemos que o desafeto das pessoas com os políticos permite o estabelecer de uma conversa, por isso, porque não fazê-lo num sítio que não sendo deliberativo é open source, não implica custos nem riscos e tem um grande potencial?» desafiou o especialista em tecnologias da informação.

No sábado o Teatro Municipal Rivoli acolheu um novo conjunto de projetos, em diferentes fases de desenvolvimento, que mostrou como todos nós, enquanto cidadãos, também podemos ser produtores e “consumidores” de ferramentas sociais que se integrem numa filosofia de cidadania.

Exemplo disso são projetos como o DCID que “pretende eliminar ruído e pôr o foco na solução”; Rebooting Democracy, uma plataforma online e um movimento cívico que partiu do livro do seu autor, Manuel Arriaga; Mapa de Obras de Vila do Bispo que permite ao munícipe “o acompanhamento fotográfico de diferentes fases da obra”; e o Sofá Visão’25 que desafiou os munícipes de Vila Nova de Famalicão a descreverem o que queriam encontrar à sua volta em dez anos.

O resultado das nossas rotinas foi parar a Um País Como Nós que cruza indicadores de várias fontes (INE, IEFP, DGAL e PORDATA) para retratar Portugal em áreas como a população, emprego, economia, educação e saúde, permitindo “fazer um retrato estatístico de cada cidadão que passe pelo site”. No contexto da saúde e num Portugal mais inclusivo, surge o Places4All que partiu precisamente da limitação do seu autor, Hugo Vilela, que procura eliminar barreiras no seu dia-a-dia para “aproveitar a vida ao máximo”. A plataforma faz a avaliação e classificação dos espaços públicos procurando agrupar e atribuir diferentes “níveis” de acordo com as condições de acessibilidade que oferecem.

“É uma espécie de guia Michelin das acessibilidades, contribuindo para uma cidade do Porto que seja exemplo para o resto do mundo”, descreveu Hugo Vilela.

Para quem quer ingressar no ensino superior mas desiste da ideia só de pensar no preço das propinas, o Iduka vem apresentar-se como a solução para micro-financiamento recorrendo ao voluntariado como moeda de troca enquanto “os jovens pagam a sua bolsa em atividades ligadas a ONGs”. Esta iniciativa já recebeu o prémio Inovação do LinkedIn. Já o Generation E recolhe relatos de jovens espanhóis, gregos, italianos e portugueses que, por motivos vários, optaram por emigrar. O Generation E já recebeu mais de mil histórias de jovens que abandonaram o país.

Tudo o que bom acontece na sua rua pode e deve ter lugar no Atelier da Rua, que funciona como “um motor de modelos alternativos de financiamento de cada projeto”, ou ao projeto Aldeia Global que pretende fomentar o diálogo entre artesãos, artistas, estudantes, cidadãos e empresas, criando uma montra para os produtos e bens produzidos em determinada comunidade. “Gostávamos que a plataforma se consolidasse com os produtos para venda e a fazer a demonstração de como foi feito o processo de produção bem como os objetos utilizados”, manifestaram os autores.

O MyNeighbourhood parte de uma iniciativa europeia cujo objetivo é recriar e fortalecer os laços sociais no espaço do bairro com repercussões à escala da cidade. Já para permitir o estudo dos incêndios no nosso país, a Flipside construiu o Incêndios.pt, um site que permite explorar dados abertos sobre fogos a partir de parâmetros como tópicos e localização e cruzá-los num mapa ao longo de “12 anos de fogos em Portugal”, como contou Olaf Veerman.

O “Cidadania 2.0” contou com a presença de pouco mais de 100 participantes, com os mais diversos backgrounds. A edição deste ano registou uma diminuição no número de instituições públicas inscritas, ao mesmo tempo que duplicou o número de participantes em representação de entidades de solidariedade social e sem fins lucrativos.

Publicado por:

   Daniela Azevedo

2 Comentários

  1. Jorge Garcia del Arco
    Jorge Garcia del Arco -  3 de Outubro de 2014 - 7:13

    Hi Daniela,

    I want to thank you all for the great event you carried out.

    Just credit that Progrezz was presented by Gonzalo Aller.

    Muito obrigado!

    Responder

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