5 Condições para Cidadania 2.0 com Impacto

Quando em 2010 idealizei o evento Cidadania 2.0 nunca pensei que viesse a ser mais do que 1 evento: 1 dia para dar a conhecer projetos representativos de como as ferramentas sociais estavam a ser usadas para melhorar o diálogo e aumentar a participação cívica.

Hoje, 4 anos depois, o Cidadania 2.0 já não é “só” 1 evento: já se realizaram mais 3 edições e existe esta plataforma online. Igualmente importante, o evento Cidadania 2.0 não é só uma realização minha – a Ana Silva e o Vitor Silva são elementos fundamentais na equipa.

Estes 4 anos, juntos aos outros 2 que eu já trazia da Headshift, deram-me certezas do potencial destas abordagens. Deixaram também evidente a dedicação continuada de que estes projetos necessitam para que alcancem verdadeiro impacto.

As lições aprendidas por Christian Kreutz resumem bem a minha própria experiência. Por isso, para além de já as ter sumariado, não quis deixar passar a oportunidade de as aprofundar um pouco mais, de acordo a minha vivência e com as especificidades da cultura portuguesa.

“A maioria das pessoas não tem quaisquer expetativas em relação a aplicações de participação cívica e nem sequer sabe que existem”. Christian Kreutz

São ainda poucas, mas são cada vez mais as pessoas em Portugal que conhecem este tipo de ferramentas e iniciativas. (Gosto de pensar que os eventos e a plataforma Cidadania 2.0 têm contribuído para isso.) Porém não vêem que daí advenham grandes consequências e, por isso, utilizam-nas pouco.

Nalguns casos, como Kreutz refere, os projetos nascem “desgarrados”, fruto de iniciativas individuais ou de pequenos grupos de cidadãos e sem apoio das organizações. Esse apoio poderia ser maior visibilidade, a oferta de um “selo de credibilidade”, e a valorização das ideias, questões e comentários apresentados.

É importante conseguir aliar a dinâmica e agilidade das iniciativas da sociedade civil com o poder de impacto das organizações públicas. Mas isso é muito difícil.

Muitas organizações têm receio de dar voz aos cidadãos: “E se os cidadãos começam a usar estes espaços online para dizer mal de nós?”. Outras entidades vêem aqui oportunidades políticas, instrumentos de campanha para influência da opinião pública: “Vejam como estamos empenhados em representar a vontade dos cidadãos!”. Em projetos com esta última motivação, diagnosticamos doenças graves e muitas vezes fatais, nomeadamente os ciclos eleitorais e o foco no curto prazo.

“Fazem lindas ações de relações públicas, onde os cidadãos podem dar voz às suas preocupações, mas raramente pensam em serviços continuados para participação cívica.” Christian Kreutz

Um outro grande problema, este muito português, é a vontade que as pessoas têm de ser donas do seu próprio projeto resultando frequentemente na diluição de recursos (tempo, dinheiro, energia, paixão), dispersão dos cidadãos, perda de impacto, estagnação.

Em Portugal, é raro, especialmente nas organizações sem fins lucrativos, observar pensamento e planeamento a longo prazo. Não ajuda o facto de os recursos financeiros para este tipo de projetos surgirem, essencialmente, de programas de financiamento que exigem resultados num curto espaço de tempo. Assim, afina-se a pontaria para o desenvolvimento de metodologias e instrumentos e procuram-se “bolhas de atividade” – que sobem muito mas rapidamente rebentam sem consequência.

“Financia-se o desenvolvimento técnico da aplicação para inovação cívica em vez do compromisso de criar um serviço sustentável a longo prazo. O resultado são inúmeras aplicações falhadas para envolvimento cívico, que poderiam ter enorme potencial, mas que nunca foram além do seu desenvolvimento técnico.” Christian Kreutz

Para terminar, um ponto que se prende com o anterior, que também pedi emprestado ao texto de Kreutz, e que me é particularmente querido: a avaliação de impacto. Enquanto continuarmos a financiar projetos aos quais não se exige uma cuidada avaliação de impacto; enquanto valorizarmos mais a visibilidade mediática do que a consequência pragmática, dificilmente teremos iniciativas de participação cívica com um impacto real e generalizado.

Considerando tudo o que anteriormente expus, e para que tenhamos projetos marcantes para a sociedade e para a democracia, vejo como vital que as organizações e os cidadãos:

  1. valorizem (também) projetos com retorno a longo prazo
  2. se preocupem com a constante monitorização de atividade e avaliação de impacto
  3. procurem parcerias operacionais e estratégicas
  4. se disponham a acolher, facilitar e propulsionar projetos e iniciativas de outros
  5. contribuam para um ecossistema de valorização e apoio a iniciativas de cidadania 2.0.

É por isto que, a título pessoal, continuarei a voluntariar parte do meu tempo para o projeto Cidadania 2.0. É também por isso que, em 2015 e no âmbito da Knowman, vou trabalhar com organizações públicas e privadas, com e sem fins lucrativos, no sentido de apoiar iniciativas de cidadania 2.0 e, acima de tudo, criar condições propícias para que estas tenham um impacto maior e mais duradouro. Oportunidades existem – em Portugal e a nível europeu – e ideias é o que não falta por aí!

Publicado por:

   Ana Neves
Sócia e Diretora Geral da Knowman, empresa de consultoria nas áreas de gestão de conhecimento, comunidades de prática, ferramentas sociais e participação cívica digital. É uma das organizadoras do evento Cidadania 2.0 e a pessoa responsável pela plataforma Cidadania 2.0.

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