Clay Shirky, tecnologias, mudar de ideias e hackathons

Clay Shirky apresentou no Summit da Code for America no passado dia 15 de Outubro em São Francisco, EUA.

Na minha opinião, a linha condutora que usou nesta sua intervenção foi dar uma volta mais longa do que seria necessário. Apesar disso, e como é habitual nas suas partilhas, acabei sempre por recolher alguns pontos para reflexão. Desta vez, quase todos no contexto do Cidadania 2.0. Permitam-me partilhá-los aqui convosco.

Nos primeiros segundos do nono minuto, Clay Shirky afirma:

“Every new technology makes new things possible”

Sim, ele diz explicitamente que todas as novas tecnologias tornam novas coisas possíveis e que se isso não acontece é porque a tecnologia não é nova ou porque não é uma tecnologia. E prossegue dizendo que, em face de uma nova tecnologia, é perfeitamente legítimo olhar para ela e tentar ver para que pode ser usada. Servirá para resolver problemas existentes? Poderá ser usada para dar resposta a problemas que ainda não sabemos ter?

Mas mais importante que tudo isto é a mensagem que Clay Shirky passa sobre a importância de, na possa de novas tecnologias, sermos capazes de repensar os nossos problemas e conceber abordagens, também elas novas, para esses problemas.

Transpondo esta ideia para a cidadania, será que precisamos de usar as novas tecnologias (como as ferramentas sociais, por exemplo) para melhorar o diálogo entre o Governo e os cidadãos, ou será que devemos repensar o propósito e as características desse diálogo? Será que esse diálogo tem de ser consciente? Ou iniciado de forma propositada? Vemos pessoas que partilham histórias entre si através de caixotes de lixo; ou cidadãos que através de jogos gerem as suas cidades. Porque não usar a tecnologia para contabilizar o tempo que os cidadãos passam em salas de espera de estabelecimentos públicos (por exemplo, centros médicos, repartições de Finanças, etc.) e enviar esses dados para o Governo? E criar competição entre serviços públicos com base nesses dados?

Uma outra ideia que Clay Shirky deixa nesta apresentação é a de que uma das coisas que nos distingue é a nossa capacidade individual de mudar de ideias. Não há problema se estivermos errados, desde que tenhamos a capacidade de perceber que errámos, de preferência perceber porquê, e mudar de ideias.

Quando idealizei a Plataforma Cidadania 2.0 para dar resposta a desejos e necessidades identificados por quem passou pelas três edições do evento Cidadania 2.0, avisaram-me que dificilmente conseguirá a atenção de pessoas do Governo. Disseram-me também que é quase missão impossível conseguir que as pessoas venham aqui adicionar (os seus) projetos e partilhar notícias sobre eles.

Não discordo de nada disso. Tenho consciência do muito trabalho envolvido (quer dizer, pode haver mais do que aquele de que tenho consciência, mas mesmo este sei que é muito). Apesar disso, acreditei que era importante experimentar porque um só projeto pode fazer a diferença para uma pessoa, para uma causa, para uma cidade, para um país… E se esta Plataforma servir para catapultar esse 1 projeto, já terá valido a pena o meu trabalho e o esforço que a Samsys ofereceu para a sua construção. Torço e trabalho para que dê certo. Mas se não der certo, espero cá estar para mudar de ideias.

Finalmente, a terceira ideia que o Clay Shirky deixou e que me despertou muito a atenção, foi a seguinte:

“Hackathons don’t come up with a solution. The output of a hackathon is a better understanding of a problem. The product of a hackathon isn’t running code: it’s the social capital developed among the people in the room.” (21′)

Isto chamou a minha atenção por ver o grande número de hackathons que se fazem, para os mais diversos fins. Não lhes tiro nenhum mérito porque:

  • dão vida a projetos num curtíssimo espaço de tempo
  • envolvem e tiram partido das competências de um leque (mais) alargado de pessoas
  • a energia tipicamente gerada nessas sessões, cria um envolvimento emocional maior entre os participantes e os projeto.
Hackathon en Santiago de Chile

Hackathon em Santiago do Chile (foto de Desarrollando América Latina no Flickr)

Mas apesar de tudo isto, questionava-me sobre a dimensão, complexidade e ambição possível num projeto construído nas condições de um hackathon. Um projeto simples (mas eficaz) capaz de produzir quick-wins é fantástico. Mas será que precisamos de 6 projetos desse tipo? Ou será que valeria mais ter um desses e outro, mais complexo, que demorasse mais a construir, mas que conseguisse ir mais além e ter um maior impacto?

Por isso, o que diz o Clay Shirky sobre o benefício principal dos hackathons é música para os meus ouvidos. E será certamente considerado quando, em breve, começar a pensar algumas sessões sobre cidadania 2.0 e a planear a edição de 2014 do evento Cidadania 2.0.

Têm ideias? Porque não usar o espaço de comentários abaixo para as partilhar comigo e com o resto das pessoas que por aqui passam? Gostaria imenso de as ouvir.

Publicado por:

   Ana Neves
Sócia e Diretora Geral da Knowman, empresa de consultoria nas áreas de gestão de conhecimento, comunidades de prática, ferramentas sociais e participação cívica digital. É uma das organizadoras do evento Cidadania 2.0 e a pessoa responsável pela plataforma Cidadania 2.0.

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